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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Todos dando uma força para os presentes da criançada
D. Sônia apresentando as bonequinhas de pano criadas por ela
D. Sônia apresentando as bonequinhas de pano criadas por ela
Agente Geni experimentando os brinquedos
Bolinhas de meia...
Fazendo brinquedos com materiais recicláveis para doar para as crianças

sábado, 8 de outubro de 2011

Conto – " A Vacina"

(É muito divertido, vale a pena ler)

(...)

Zé, você precisa ir ao Posto de Saúde do Estado, lá no Bom Retiro, para retirar 500 doses da vacina anotada neste pedido. A partir de amanhã, o Departamento Médico vai aplicá-las nos funcionários.

Antes de zarpar, o Zé passa no banheiro, penteia os cabelos e aplica boa dose de desodorante nas axilas. Todo garrido e lampeiro vai até o nono andar, de onde toma o elevador e parte enlevado para a sua missão... Ele sempre zanzeia nessas paragens por ditames do coração... Segue pela Dom José de Barros, em direção ao Largo do Paissandu. Assobia e gira com maestria no indicador da mão direita sua velha e ensebada pasta de cartolina que, lançada ao ar, é equilibrada no “fura-bolo” da mão esquerda. No Paissandu toma o ônibus com destino ao Bom Retiro.

Chega ao posto de saúde onde inúmeros cartazes coloridos afixados por todas as paredes do antigo casarão amarelo, prendem-lhe os sentidos. Anúncios em letras graúdas sempre tocam a sensibilidade do Zé. Os que agora lê convidam-no a se vacinar contra a paralisia infantil, poliomielite, varíola, meningite, febre amarela e toda corriola de mazelas que ferem fundo o altivo animal chamado homem. Um desses letreiros golpeia fortemente o garoto, pois anuncia: “Vacine-se contra o tétano”, e mostra a figura de um horripilante monstrinho redondo, peludo, com cara de pérfido, fugindo em desespero de uma gota da vacina pronta a submergi-lo. O Zé matuta:

Caramba, eu vivo me azarando, me estropiando...

Lembra-se de recentes acontecimentos: murro no olho esquerdo ao findar o jogo de domingo na várzea do Itaim; dedão do pé semi-arrancado ao chutar descalço um paralelepípedo na pelada com uma tampinha de cerveja, lá na esquina da padaria. Conclui, então, necessitar da tal anti-titânica.

Dirige-se à recepcionista de plantão:

Dona, quero me vacinar contra o tétano!

Após um marasmo interrogativo – idade, peso, doenças que teve, vacinas que tomou, alergias... –, com as respostas anotadas num vetusto prontuário, ritual que o Zé reputou bestial perda de tempo para algo tão simples como tomar um copo de água, a senhora pede-lhe que se dirija à sala de aplicações. Resignado com tamanha burocracia, superior às suas forças, vai a passos despreocupados ao local indicado, ali mesmo no andar térreo.

É recebido sem entusiasmo pela gorda enfermeira, mulata de ar severo, doidinha por resolver de bate-pronto o encargo e voltar à revista interrompida com a chegada daquele pirralho magro e ossudo. Sem palavras de boas-vindas, lê carrancuda o prontuário e diz:

Tire a camisa.

Pudico em expor seu pobre esqueleto diante das demais enfermeiras que permanecem lendo revistas ou fazendo tricô, o Zé sugere:

Dona, não dá só pra arregaçá a manga?

Ande logo fedelho que não tenho tempo; tire a camisa.

Tira, mas resmunga por dentro:

Baita gente complicada... cansado de ver aplicar vacina no ombro com a manga arregaçada.

Pois é, como faz tempo que não se vacina, o Zé julga que a aplicação é feita com aquele tubinho de vidro semelhante a um palito de dente com o qual viu cutucarem há tempos na televisão o ombro de um vacinado; ou à base de revólver de aplicação, gotas, ou qualquer método mais simples.

Sem camisa, arrepia-se feito frango molhado com a lufada de um vento friinho que veio bisbilhotar desde um gélido pátio amortalhado com permanente sombra.

De olhar curioso, atento aos movimentos da enfermeira, o Zé a vê dirigir-se a um armário estranho parecido com uma barrica de metal, abrir a tampa e desentranhar aquilo que mais teme na vida, depois da matemática: seringa de injeção!

Barbaridade! – grita, retrocedendo um passo. Acho que esse troço não é pra mim, não!!

Inspeciona ao redor e conclui ser ele a única vítima para o abate. Não teve, o azarado Zé, a sorte do afortunado Isaac, lá no Velho Testamento, que foi substituído por um cabrito.

Pálido, mudo, sem forças para reagir, segue atônito o seguro ritual da algoz, que agora abre uma paleolítica geladeira cor branco-cadáver e retira dois frascos de vidro com tampa de borracha, por onde introduz a terrificante agulha da seringa (para o Zé, prego de peroba). Suga lentamente todo líquido do primeiro frasco, que é lançando vazio num macabro e hospitalar cesto de lixo com pedal; esvazia o segundo recipiente e o mantém espetado na ponta da agulha para protegê-la dos males da atmosfera. Vem na direção do moleque com as duas mãos erguidas à altura da cabeça, trazendo numa delas a seringa – punhal – cheia de um pastoso líquido esbranquiçado, e na outra um chumaço de algodão embebido em éter.

Estarrecido, fixos os olhos nos instrumentos de morte, o moleque recua, sendo interceptado pela parede. Pensa fugir, mas a porta e a janela encontram-se atrás da enfermeira, e são alcançáveis apenas passando por cima do cadáver dela. Petrifica-se o Zé. A gorda senhora lança-se resoluta sobre a presa, mantendo agora na mão esquerda a seringa e o algodão, deixando livre a direita que, feito gadanho de ferro, prende o braço do moleque como quem aperta um magro caniço de bambu. Esfrega o éter no ponto da aplicação e o forte odor do líquido asséptico penetra nas narinas do pirralho e põe-lhe tudo a rodar, desbobinando de sua imaginação sangrentas cenas hospitalares: tripas de fora, bisturis, poças de sangue e tudo mais que faz trepidar qualquer garoto com boa saúde, pouco acostumado a coisas tão incômodas como essas.

Surge o inesperado! Caiu! Caiu Babilônia, a grande! O Zé desmaiou de pavor!!! Sim, de pa-vor! O bravo Zé, jamais vencido por moleque algum, e cuja temeridade pensa ser sua maior virtude; aquele que fez desandar de medo o Zarolho e o Zeca Malandro, pequenos marginais temidos pela garotada do bairro; quem, junto com o Aristeu, batera sem dó no Cicatriz, no Peru e no Correia, bando da Rua Marques Leão; que enfrenta tipos com o dobro de sua idade e tamanho; que na saída da velha Escola Estadual Maria José acertara contas com grandalhões que malharam algum amigo seu; enfim, o Zé, tipo do cara que nunca leva desaforo para casa e encarara árduas vicissitudes da vida com fortaleza incomum – exceto a matemática –, jaz ali estatelado no chão qual escória ou peru bêbado na véspera do Natal... E agora, rapaz!?... Quem te viu e quem te vê, não?! Já pensou, velhão, o que diria a turma lá do Bixiga, vendo você assim? Que papelão... Dá até vergonha de revelar que o conheço, meu caro... É o aniquilamento, a desonra! Oh, desditada vida, quanta ignomínia! Quem diria...

Confuso, ao voltar lentamente a si, o Zé ouve lá longe as vozes dos que ao seu lado confabulam:

Então, doutor, ele vai melhorar?

(...)

Desalinhado, o garoto põe-se em pé. O teto volta a girar; a mão esfria. Cai sentado no catre. Respira fundo; aguarda uns minutos. Sente as pernas firmarem e ergue-se. Grato, despede-se das gentis senhoras e parte todo jururu. Ao ultrapassar a soleira da porta ouve a derradeira advertência ou tiro de misericórdia:

Meu benzinho, você deve voltar daqui a quinze dias para tomar a segunda dose, viu? Não esqueça, tá!? Senão a primeira aplicação perderá o efeito!

Um suspiro lento, profundo, e um sim com a cabeça é a resposta do Zé: faltam-lhe forças para juntar ânimo de protesto. Apenas, como augúrio inevitável, pressente espessas nuvens de dissabores abarreirarem-se no horizonte das duas próximas semanas. Agradece a triste recomendação e sai. A dor no ombro direito é sinal evidente de que a experimentada enfermeira – escolada desses tipos durões que se desmancham frente uma ridícula agulha – aplicara-lhe a injeção mesmo estatelado no solo.

(...)

Oh, que duas semanas penosas; oh, que quinze dias fatídicos! Cada folhinha destacada do calendário pendurado na parede da cozinha oprime o coração do Zé. É um sentenciado abeirando-se ao dia do paredão. Sua decisão de tomar a segunda dose varia a cada instante de um rotundo e peremptório “não vou nem a pauladas”, até um frouxo e bordejado “acho que vou”. Horas depois está resolvido a não ir, e depois de horas a ir. E assim permanece enredado em desejos contrários, e em contrários desejos está.

Por fim, irrompe o dia marcado. Que paúra! Acordou com um rotundo e monolítico – “Não vou; questão fechada”. Até às dez horas da manhã, mudara de parecer dezoito vezes. Contudo, aproveitando o tempo de almoço, lá foi o Zé ao posto de saúde. Que valentia incomum! Enfrentou o árduo dever com maturidade.

(...)

Ao chegar no casarão amarelo da saúde, sua fértil imaginação o fez sentir-se alvo de chacotas e olhares trocistas das enfermeiras, que pareciam lhe dizer: – “Olhem aí, o valentão chegou!”. Que opróbrio! Com faces abrasadas, quase voltou. Envergonhado do pretérito papelão, dirige-se humilde e servilmente à enfermeira gorda que já o conhecia muito bem:

Oi, dona enfermeira!

Como vai, garoto? – a voz dela é maternal.

Mais ou menos...com medo... A senhora acha que é mesmo pra tomar essa segunda dose?

Precisa sim, filhote.

O Zé cala-se, respira fundo e dá um tempo. A enfermeira inicia o preparo da seringa, já não mais sob o olhar curioso do moleque, que resolve pôr-se de costas, a fim de contar os buraquinhos da centenária parede do casarão.

Ainda de costas, com tímida voz, novamente interpela:

Dona, será que... Será que a senhora poderia aplicar a injeção aqui atrás – apontando justamente para aquele setor de carnes fartas também alcunhado de pousadeiras.

Está bem; abaixe a calça.

Volta-se lentamente para a senhora:

Sabe, dona enfermeira, se eu pudesse me deitar naquela maca – ruboriza-se com a lembrança do desmaio – acho que não me esborracharia de novo – e sem saber onde por as mãos, desvia o olhar para o assoalho e impede com o bico do tênis a passagem de uma formiga.

A enfermeira ri e lhe aponta a maca. O Zé abaixa a calça e um tiquinho do calção. Deita-se e prende a respiração para evitar o cheiro do éter, emoliente dos seus ossos. Enterra o rosto no travesseiro e se enrijece feito dormente de concreto. A enfermeira vendo músculos tão contraídos e em atitude de defesa e pavorosa expectação, sabe que não será possível fincar-lhe o delicado espeto. Utiliza, então, especial técnica para tais casos: finge introduzir-lhe a agulha cutucando com o dedo a nádega do Zé, que distende-se certo de que tudo acabara, quando então plac!, enterra-lhe a fina haste de aço.

Ui! – contrai-se novamente.

Relaxe, relaxe, garoto. Pronto, pronto. Viu só, acabou e não doeu nadinha – a seringa ainda cravada nas carnes vai pela metade da dose.

Puxa, não desmaiei!... Não desmaiado, , enfermeira?

Nesse momento retira a agulha:

Não. Você está forte como um touro! Pode levantar.

Caramba, como diz minha avó, não me desmilingui!

A funcionária se despede e volta à fotonovela.

Ao levantar da maca, o Zé padece ligeira tontura. Torna a sentar-se e respira fundo. Aguarda um momento e ergue-se senhor absoluto dos quatro pontos cardeais, que pode apontá-los sem pestanejar.

Missão cumprida! Batalha vencida! Depositar a derradeira pedra e ultimar a obra iniciada, mais se é árdua, plenifica o espírito de alegria. Viva a vida! O Zé sente-se o herói da batalha do último filme. Agradece as funcionárias com ar de valentão e, expandindo-se seguro de si, pergunta se deveria retornar para uma terceira dose. Informado ser desnecessário – coisa que bem sabia, e como! –, faz cara de resignado e parte.

Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009)